Como identificar o sofrimento psíquico em bebês?


Em minha pesquisa de doutorado sobre a angústia, um ponto central se destaca: como o sofrimento se manifesta quando as palavras faltam?

Nesse contexto, não há apenas uma ausência ou excesso de movimento, mas uma defesa subjetiva diante de uma angústia que ainda não encontrou contorno. O que um bebê comunica através do choro persistente, da dificuldade na alimentação e turnos do sono ou, de um silêncio excessivo? Na clínica psicanalítica, entendemos que o bebê, desde muito cedo, é um sujeito em plena constituição, cujas manifestações físicas e emocionais são apelos endereçados ao seu cuidador.

​A prática clínica fundamenta-se na escuta ética do sofrimento psíquico precoce, apoiada nas principais referências da psicanálise, como Freud, Lacan e psicanalistas contemporâneos.

Uma Aposta no Sujeito
​A intervenção com bebês não visa corrigir comportamentos, mas sim sustentar o laço humano e a constituição subjetiva. Para isso, pauto meu trabalho clínico em três pilares fundamentais:
​1. A Convocação pela Linguagem: compreendemos a importância da voz e do “banho de linguagem” para que o bebê seja capturado pelo simbólico. O sofrimento aqui pode ser visto como um impasse nesse diálogo primitivo. Para que o sujeito passe a se posicionar no mundo, antes ele precisa do completo amparo de seu adulto cuidador.
2. ​A Escrita do Corpo: analisamos como o simbólico marca o real do corpo. A clínica intervém nos entraves de desenvolvimento, permitindo que o organismo se transforme em um corpo pulsional e desejante. Enquanto cuida-se do corpo do bebê, no que se refere aos cuidados de higiene , de alimentação e sono, há a transmissão de amor, num processo de humanização do bebê.
​3. A Ética da Antecipação: o analista atua antecipando um sujeito ali onde o desamparo parece imperar. É uma aposta na reativação do circuito pulsional entre o bebê e seus cuidadores. É necessário que o adulto interprete as manifestações do bebê, e realize ações específicas, que sozinha a criança ainda não consegue. Nesse processo, o adulto vai oferecendo suporte e contorno ao bebê, para que ele venha a se posicionar como pessoa.

​Quando buscar ajuda?
​A clínica com bebês e seus pais é indicada quando há sinais de preocupação em relação ao desenvolvimento psíquico ou impasses na relação parental, tais como:

  • Dificuldades do sono ou da alimentação sem causa orgânica aparente;
  • ​Dificuldades graves na interação e no olhar;
  • Apatia excessiva ou choro inconsolável;
  • Desinteresse ou falta de reação aos estímulos do ambiente, como luzes, sons e movimentos;
  • Acompanhamento em casos de prematuridade ou diagnósticos precoces.

​O objetivo é intervir “a tempo”, oferecendo suporte para que o sofrimento não se cristalize e para que o bebê possa encontrar seu lugar no desejo e na linguagem.
​Na prática clínica com bebês, o trabalho se faz pelo manejo da escuta. Olhar para a angústia não como um defeito a ser removido, mas como uma bússola para o tratamento.